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Conversão quaresmal
24 de fevereiro de 2019
Pedagogia de março 2019
 
A reflexão da pedagogia litúrgica de março será um pouco diferente porque focará todos os Domingos quaresmais, e isto significa introduzir o 5º Domingo da Quaresma – C, que será celebrado no primeiro Domingo de abril.
 
Convite à conversão
A característica da Teologia e da espiritualidade quaresmal ilumina-se basicamente na conversão. Uma primeira iluminação para incentivar a conversão encontrada-se no 8DTC-C, celebrado no início de março. É uma Palavra que chama atenção para um elemento fundamental no caminho da conversão: Jesus é o Mestre e nós, cristãos, somos seus discípulos e discípulas. Isto significa que a conversão só acontece à medida que nos deixamos guiar por Jesus e caminhamos nos caminhos do Evangelho. Este, aliás, é o apelo de Jesus no início de sua vida pública: “convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Crer no Evangelho para produzir frutos evangelizadores em nossas vidas (8DTC-C).
Ingressando no caminho quaresmal, o primeiro apelo à conversão acontece na Quarta-feira de Cinzas e insiste no abandono dos caminhos do mundo para ingressar nos caminhos de Deus. Para isso, a espiritualidade quaresmal propõe três atitudes: a esmola, a oração e o jejum. Esmola como convite para partilhar o que se tem com quem está necessitado; converter-se pela partilha e pelo desapego. A oração, também esta como partilha de um tempo da vida pessoal para estar com Deus; a conversão passa pela convivência e intimidade com Deus. O jejum, como ascese para treinar o domínio das próprias vontades e não ceder ao instinto e aos apelos do corpo e da mundanidade.
 
Conversão e fé
            A fé é elemento essencial no processo da conversão. É pela fé que nos tornamos capazes de perceber que tudo que somos e temos vem de Deus. À medida que a fé vai tomando conta de nossas vidas, nós nos colocamos nas mãos de Deus e nos tornamos gratos a Deus, reconhecendo tudo que dele recebemos. Pela fé, nasce em nós aquilo que pode ser denominado como gratidão oferente”, isto é, a capacidade pessoal de reconhecer que tudo vem de Deus e transformar este “tudo” em gratidão. Atitude que desfaz a arrogância e a tentação de se considerar onipotente. É um passo decisivo no caminho da conversão porque, pela gratidão oferente, nos fortalecemos espiritualmente para recusar toda tentação capaz de nos distanciar do discipulado (1DQ-C).
            Diante do Absoluto, diante do incompreensível, como foi a experiência de Abraão (2DQ-C), convidado a deixar suas seguranças e partir, a fé é fundamental, essencial, imprescindível. Todos os dias, seja por motivos que percebemos ou não conseguimos perceber, somos convidados a deixar nossas seguranças e partir para outras terras. Isto perturba o incrédulo, mas não o fiel, aquele que confia na Palavra de Deus. A conversão que faz crescer a fé coloca-nos serenamente diante das mudanças da vida, como por exemplo, a mudança da saúde para a doença, do emprego para o desemprego, de amigos que partem.... Não se trata de resignação, é serenidade produzida pela fé, certeza e confiança o Senhor sempre nos conduz.
            Para realizar a travessia de uma terra para outra, na ótica da fé, consideremos duas atitudes da cena da Transfiguração de Jesus (2DQ-C): a oração e a escuta da Palavra. Jesus se transfigura enquanto rezava e, depois, ouve a Palavra do Pai. A Transfiguração de Jesus acontece no momento que ele estava para deixar sua terra e voltar ao Pai, passando pelo sofrimento. Momento de passagem feito na oração e na escuta da Palavra. As travessias que a vida propõe são momentos oportunos de conversão que se fortalecem na oração e na escuta da Palavra.
            O 3DQ-C conclui esta primeira parte da espiritualidade quaresmal iluminando a conversão com o cultivo da fé. A Palavra do 3DQ-C nos leva a compreender que a fé é sempre uma proposta de caminho, é sempre desafio colocado diante de nós para encontrar Deus e para nos aproximar de Deus, como aconteceu com Moisés. Por isso, o cultivo da fé é caminho de conversão capaz de nos liberta de catástrofes existenciais, como a grande catástrofe que consiste em perder a vida plena por não nos converter ao projeto do Reino.  
 
Perdão e misericórdia
O segundo elemento da pedagogia quaresmal, neste ano de 2019, considera o perdão e a misericórdia como frutos da conversão. A este ponto, podemos resumir a espiritualidade quaresmal de 2019 com três palavras: fé, perdão e misericórdia. Fé como confiança para entrar no caminho da conversão, o perdão como necessidade para deixar a vida passada no passado e a misericórdia caracterizando o relacionamento fraterno.
A espiritualidade cristã da Quaresma é iluminada com a luz da misericórdia. E, sempre que se fala em misericórdia, se está falando de atividade, de produção de frutos existenciais na terra da nossa existência (4DQ-C). A misericórdia não é um sentimento, é atitude de amor para com o miserável, para com quem está necessitado. Por isso, a misericórdia é um fruto prático, concreto, da conversão. A parábola do Pai Misericordioso ou do Filho Pródigo (dependendo da ótica) indica a prática do acolhimento misericordioso do Pai, e indica, sobretudo, a necessidade de uma espiritualidade que se alimente, não de porcarias, mas da mesa do Pai; se alimente de atitudes de misericórdia que se traduz em acolhimento fraterno; coisa que o irmão mais velho não concordou e nem assumiu.
Entre os frutos da misericórdia, o mais vistoso e o mais divino é o perdão. Deus é misericordioso e por isso perdoador (5DQ-C). Deus não quer a morte do pecador, mas que ele viva e não peque mais. A misericórdia, e agora o perdão, são duas atitudes práticas e concretas. A conversão pode surgir de algum sentimento emocional, digamos assim, mas a mudança que realmente demonstra conversão é aquela que se traduz em atitudes práticas, não somente no tempo da Quaresma, mas por toda vida.
 
Conclusão
            A Quaresma propõe um caminho e um método para se chegar ao resultado final da conversão. Trata-se de um caminho existencial bem concreto, feito de atitudes, que conduzem a um resultado concreto: mudar de vida, mudar de mentalidade, tornar-se discípulo e discípula de Jesus.
            Quanto ao método, este é feito de práticas como a esmola, a oração, o jejum, o cultivo da fé, a busca de Deus, o acolhimento e a oferta do perdão misericordioso. A lista de práticas quaresmais que favorecem a conversão, de forma ampliada, encontra-se no Evangelho da Quarta-feira de Cinzas. Não se trata de “penitências” pesadas ou simples renúncias, mas da mais profunda de todas as penitências: aquela que é capaz de converter, de mudar realmente a mentalidade e a vida de uma pessoa.
Serginho Valle
Fevereiro de 2019
 

 

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