Artigos Serginho Valle


Espero que você já tenha saído de uma confissão com o coração mais leve, como quem tirou um peso das costas. Essa experiência tem um nome: Páscoa. Na encíclica Dives in Misericordia, São João Paulo II mostra que o Sacramento da Penitência não se qualifica como uma regra da Igreja. É a Páscoa de Cristo tocando a vida concreta do penitente com a experiência do perdão misericordioso derramado no seu coração através da celebração do Sacramento da Penitência.

A Páscoa é o ponto mais alto da misericórdia

Deus é sempre misericordioso. “Seu amor é sem fim”, canta o salmista (Sl 135,1), e é na Páscoa que essa misericórdia se manifesta, derramada sobre a humanidade, com toda a clareza. A Teologia Litúrgica diz que o Mistério Pascal é o ponto culminante da revelação e da atuação da misericórdia divina em favor da redenção humana. Em Jesus crucificado e ressuscitado, o amor de Deus enfrenta o pecado e a morte e os vence. É a vitória da vida sobre a morte e a destruição do pecado que conduz à morte eterna. Por meio de Jesus Cristo, o ser humano é justificado, isto é, tornado justo diante de Deus, em condições de participar da justiça divina, da santidade divina. Desse modo, destruindo o pecado, o projeto de Salvação que o Pai desejou desde o princípio volta a ser possível para toda a humanidade e para cada ser humano, graças ao perdão misericordioso derramado através de Jesus.

Mesmo assim, continuamos humanos, sujeitos a pecar; continuamos pecando e isso nos impede de participar plenamente do Mistério da Salvação divina. E, nesse sentido, São João Paulo II escreve que o Sacramento da Penitência “aplana o caminho a cada um dos homens, mesmo quando sobrecarregados com graves culpas”. Repare na palavra “cada”. Ninguém está excluído e, mais, o perdão é concedido individualmente. Nenhum pecado, por mais pesado que pareça, fecha a porta da misericórdia divina. No Sacramento da Penitência, todos podem experimentar, de modo muito especial, o amor que é mais forte do que o pecado, pois o amor divino perdoa e reconcilia.

Por que dizemos que a Confissão é “pascal”?

Por que o Sacramento da Penitência é pascal? A resposta tem um profundo fundamento na Teologia Litúrgica. Primeiro, porque todo Sacramento é um evento pascal, é a celebração de um Mistério Pascal. Mistério, compreendido como ação salvadora de Deus na vida humana e em favor da vida. Confessar os pecados à Igreja, representada na pessoa do seu ministro, é um evento salvador conduzido pelo Espírito Santo. O perdão dos pecados é dado na presença e pela ação do Espírito Santo.

A resposta se completa compreendendo que o Sacramento da Penitência é um evento pascal porque ele repete, na vida de cada pessoa, o que aconteceu com Jesus Cristo: Ele venceu a morte pela ressurreição. No Sacramento da Penitência, o amor de Deus vence o pecado e devolve a vida da graça ao penitente. O pecado nos afasta de Deus e nos deixa, de certo modo, mortos por dentro. O perdão nos levanta, assim como Jesus foi levantado do sepulcro, para viver de modo novo, caminhando no discipulado. Confessar-se é passar da morte à vida. Considerando que Páscoa, em hebraico, significa passagem, a celebração do Sacramento da Penitência realiza uma passagem da morte do pecado para a vida da graça; é uma pequena Páscoa.

A reflexão da Igreja descreve esse Sacramento como um evento religioso, salvífico, pascal e trinitário. É o encontro do pecador arrependido com o amor pascal do Pai pelo Filho, no Espírito Santo que anima a Igreja e age nela. Isso quer dizer que a confissão não é um tribunal frio nem um simples ato jurídico. O Pai acolhe quem se aproxima do confessor, o Filho reconcilia o penitente por sua cruz e ressurreição, e o Espírito Santo age no penitente e na Igreja através do perdão misericordioso. Quem se confessa compreende que participa da dinâmica da Páscoa de Cristo. Faz uma passagem da morte causada pelo pecado para a vida da graça, que significa viver iluminado pela vida divina.

A Igreja e o tesouro da misericórdia

A Igreja vive sua autenticidade quando proclama a misericórdia, “o mais admirável atributo do Criador e do Redentor”, e quando aproxima as pessoas das fontes da misericórdia do Salvador, das quais é depositária e dispensadora (DM n. 13). O Sacramento da Penitência realiza essa missão. Pelo ministério do sacerdote, o perdão pascal de Cristo se torna presente na vida concreta dos fiéis. Não procuramos apenas uma pessoa; procuramos o próprio Cristo, que age por meio de sua Igreja.

O Papa lembra que “o perdão é a condição primeira da reconciliação”, tanto nas relações de Deus com o homem e com a mulher quanto nas relações entre as pessoas. Quem foi reconciliado com Deus recebe força para se reconciliar com o irmão.

A Páscoa não é um assunto apenas entre mim e Deus. É uma salvação que constrói comunidade e, onde existe comunidade, existe a necessidade do perdão. Quem recebe misericórdia aprende a oferecê-la na família, no trabalho, na paróquia, na vizinhança, em todos os relacionamentos sociais.

A encíclica indica caminhos concretos: a meditação constante da Palavra de Deus e a participação consciente e refletida na Eucaristia e no Sacramento da Penitência. Participar com consciência significa não tratar a confissão como rotina, nem como lista de faltas que pouco se renova com o passar dos anos. Celebrar o Sacramento da Penitência é realizar um encontro vivo com Jesus Cristo pascal, fonte de misericórdia. Ajudam muito a oração, a meditação da Palavra e um bom exame de consciência antes de receber o Sacramento da Penitência.

Para guardar no coração

  • O Sacramento da Penitência é caminho aberto pela Páscoa de Cristo.
  • Nele experimentamos o amor que é mais forte do que o pecado.
  • É um encontro com o Pai misericordioso, no Filho e no Espírito Santo.
  • Restaura a comunhão com Deus e com a Igreja.
  • Capacita-nos a perdoar nas relações humanas.

 

Conclusão

Jesus Cristo, morto e ressuscitado, é a misericórdia do Pai tornada presente na história. O Sacramento da Penitência é o lugar onde essa misericórdia deixa de ser apenas uma ideia bonita e se torna experiência real de conversão, perdão e paz.

Serginho Valle 
Outubro de 2026

Para aprofundar esse caminho

👉 Liturgia e reconciliação: o Sacramento da Penitência como educação para a paz e fraternidade

👉 Pastoral da Penitência

👉 Espírito Santo e Penitência

👉 Espiritualidade Litúrgica no Sacramento da Penitência

👉 Curso Pastoral da Liturgia (SAL)